Vida na Roadway

ENPT

Acabei de sair da Roadway, ou pra manter a metáfora, cheguei na cidade (essa foi paia, lol).

Esse post é sobre meu tempo na Roadway, o que eu aprendi, como foi e como isso mudou minha vida. Tem 4 pontos me guiando nessa escrita, o primeiro é minha experiência em geral e como eu lembro dela, os outros são 3 perguntas que o Sham me fez pra eu pensar a respeito: 1) O que é algo de que você se orgulha; 2) O que é algo que te surpreendeu; e 3) O que é algo que você quer fazer melhor no próximo capítulo. Então bora cair na estrada (Roadway), dessa vez na minha cabeça, a hora do pipas e do cocô é agora, a próxima parada é longe e vamos devagar e curtindo a viagem.

Capítulo 1: A Roadway

Se você está lendo isso provavelmente sabe o que é a Roadway, mas se não sabe dá uma olhada no site. Por alto, a Roadway é uma empresa de IA de automação de growth marketing, e provavelmente o projeto mais legal em que vou trabalhar por um bom tempo. Quando eu entrei no carro ele ainda era um carrinho pequeno 1.0, Tim Dalrymple no volante, Sawyer Kisken no banco do carona, Sham, Ricardo Nacif e Pedro Mordente fazendo a magia acontecer nos bastidores. Foi um pouco assustador entrar no time porque eu vinha de um hiato na minha carreira de engenheiro de software e de um emprego anterior horrível que me deu um burnout maneiro e não acrescentou muito nas minhas habilidades técnicas.

A história de como exatamente eu entrei na Roadway é curiosa, então vou passar por ela rapidinho. Eu fiz um estágio no Educando Seu Bolso quando tava na faculdade, e lá conheci o Guilherme Vaz. Ele me chamou pra trabalhar com ele de novo em outro projeto quando eu me formei (o emprego que me derrubou, lol) e a gente era uma dupla muito boa. Isso fez ele me indicar pro amigo dele, o Lucca, que me indicou pro Ricardo. No meu estágio eu trabalhei com python então o Ricardo me colocou no projeto da Roadway, que era um projeto em python. No mês antes de eu entrar na empresa do Ricardo eu tinha 1500 reais na conta, uma fatura de cartão de crédito de 1500 pra pagar e um sonho, lol. O timing foi mais que perfeito nisso, tudo graças ao universo e sua aleatoriedade.

Então aqui estamos agora, eu no carro com os caras, na Roadway, o Tim com o pé na tábua (pensando bem eu acho que essa é uma das coisas que realmente fez o projeto funcionar e ir longe) e tem um milhão de coisas pra aprender.

Capítulo 2: Pegando Embalo

Os primeiros quilômetros foram bem desconfortáveis, como eu mencionei antes, minhas habilidades técnicas estavam enferrujadas então eu tinha muito pra desenferrujar. Além disso eu tinha um setup de home office terrível, basicamente uma cadeira ruim (que usei por mais tempo do que deveria), um Thinkpad t440p guerreiro comprado usado e um monitor quadrado velho de 2010. Eu tinha usado esse setup no emprego anterior e não percebia o quanto era desconfortável até realmente fazer um upgrade e ter um monitor e um teclado decentes (devia ter comprado outra cadeira também, lol, mas burro que sou achava que era caro demais e que não faria diferença). Talvez esse tenha sido meu primeiro aprendizado lá, ergonomia importa, e se eu estou com dor porque minha cadeira é ruim e machuca minhas costas e meu monitor é baixo então dói meu pescoço etc isso mexe com meu trampo.

Então agora a gente já rodou uns quilômetros na Roadway e eu to aprendendo a trabalhar em time de novo e me acostumando com o ritmo do projeto. Aqui a viagem tava tranquila e favorável, a paisagem linda e eu começo a me sentir parte do time. Esse é um bom lugar pra falar da pergunta número 2: O que é algo que me surpreendeu.

Logo de cara eu me surpreendi com o time, o Tim era O cara de growth marketing do Notion, sim, do fucking Notion, olosco. As surpresas não pararam por aí, e na verdade só ficaram maiores. A gente teve alguns clientes absurdamente grandes, empresas de milhões e bilhões de dólares usavam nosso produto, o produto que eu ajudei a construir. Isso é doidera, até hoje parece surreal. Eu me sinto muito honrado e sortudo de ter feito parte disso e de ter tido essa oportunidade. Não vou falar empresas específicas aqui porque não sei se posso, lol, mas só saiba que sua vó já ouviu falar de algumas empresas que eram/são nossas clientes.

Alguns quilômetros depois a segunda grande surpresa se revela, tinha uma parada inesperada (pra mim) planejada nessa viagem, a gente ia se encontrar em Lake Tahoe! Eu sempre quis viajar a trabalho, mas nunca achei que fosse acontecer. Trabalhando como programador, de casa, eu não conseguia imaginar um motivo pra viajar a trabalho. Foi de cair o cú da bunda quando eu fui mesmo pra lá, pra Lake Tahoe. Isso aconteceu em novembro de 2024, nem um ano depois de eu entrar, ainda é difícil de acreditar até hoje. Eu nem sei como descrever isso, foi/é mágico pra mim. Enfim, foi muito maneiro, todo mundo é muito legal. A parte muito muito triste disso é que o visto do Pedro foi negado então ele não pôde ir com a gente. Pra ser sincero eu sinto que foi injusto eu ter ido e o Pedro não. O Pedro era/é o MVP, ele faz tudo certo e cirurgicamente, o cara é sinistro. Isso me fez pensar em como as coisas são na vida, as coisas nem sempre são justa por motivos além da minha compreensão, tudo que eu posso fazer é aproveitar, ter consciência do quão boa minha vida é e ser grato por tudo que eu pude viver, mesmo quando eu sinto que não é justo.

Capítulo 3: Suave na nave, tranquilo no mamilo

Isso marcou o começo da melhor fase na Roadway. Eu estava confortável com os desafios do projeto, empolgado e as coisas estavam indo super bem pra empresa. Eu me sentia um discípulo do Sham, lol, estava aprendendo modelagem de dados e um pouco de engenharia de dados com ele. Descobri que realmente gosto disso, parece um quebra-cabeça e é divertido de resolver. Agora, nessa jornada se você olhar pra sua esquerda vai ver a resposta da pergunta número 1, algo de que eu me orgulho.

Na verdade tem várias coisas que dá pra ver ali, a primeira e mais óbvia que se destaca na paisagem é o Attribution Manager ou Measurement, ou seja lá como chamam isso hoje em dia, lol. É um pouco complexo então deixa eu explicar o que você está vendo. Um problema grande na Roadway era gerenciar as regras de atribuição, as regras que categorizam de onde um visitante veio pro site, por exemplo, se um visitante tinha utm_source=facebook na url ele veio dos anúncios do Facebook, simples, mas tem muitas regras e algumas podem ficar complicadas, e podem mudar. Então era um trampo pra nós quatro mantendo o motor rodando, mais uma coisa pra fazer e que não era realmente nossa responsabilidade, era do cliente. Com esse problema em mente eu construí o Attribution Manager, é uma funcionalidade que lê o código SQL que descreve essas regras (a gente tinha um padrão que os clientes herdavam e depois customizavam) pra uma AST, manda essa árvore pro front end onde ele faz o parse da AST inteira num objeto que pode ser manipulado num formulário no site, mantendo as restrições que a gente queria manter e não deixando as coisas quebrarem. Depois das mudanças ele então reconstruía a AST e mandava de volta pro back end pro SQL ser atualizado e as regras aplicadas. Foi muito maneiro de fazer isso, um desafio divertido de trabalhar, e ficou ótimo, ajudou a debugar regras estranhas, atualizar elas e pegar problemas de atribuição, era um acesso maneiro às regras que antes só podiam ser lidas em 300+ linhas de SQL e atualizadas escrevendo mais SQL.

Bem do lado do Attribution Manager você vai ver algumas outras coisas menores, vamos começar pela da direita, o refactor e otimização de dados. Essa é meio escondida, não tão fácil de ver, mas foi divertida e eu sinto que fiz um bom trabalho nela. Então, alguns dos nossos clientes tinham um volume grande de dados, e queriam ver eles agrupados em muitos grupos, então o payload ficava muito grande e estourava o limite e travava a página. Eu investiguei isso e identifiquei alguns pontos faceis pra otimizar e o que era mais difícil de fazer. Eu trabalhei nesses pontos faceis, que basicamente eram comprimir os dados no banco, comprimir o payload da API, mudar o formato do pandas de um objeto tipo JSON pra algo mais tipo CSV (um cabeçalho e várias linhas em vez de um cabeçalho por linha como é no JSON), e usar web workers pra carregar os dados. Isso reduziu os payloads em 1.5 a 2 vezes, então foi um bom ganho de velocidade e os web workers garantiam que nada grande travaria a página. As coisas mais difíceis de fazer eu só anotei e escrevi num plano pra executar quando a gente tivesse tempo.

E eu tenho certeza que tem muitas coisas pequenas de que eu me orgulho muito e que eu não consigo ver muito bem daqui da estrada, então a última que eu vou mencionar é a que ta mais ali pro lado, um pouco mais longe das outras duas, o gerador dos dados de demo. Nossa, eu herdei um notebook jupyter todo bagunçado que gerava nossos dados pras demos e tive que polir muito e fazer funcionar muito melhor. Foi bem estressante por causa de quão bagunçado era e algumas coisas ali demoravam muito pra fazer ficar certinho, mas no final deu tudo certo. Quando eu comecei a trabalhar nele as IA’s eram muito ruins pra notebooks jupyter então eu não conseguia usar de verdade e tudo era feito na mão, vários ajustes e mexidas nos números pra deixar os gráficos exatamente do jeito que o Sawyer queria. Nisso eu me orgulho mais de como eu lidei com a coisa do que do que eu realmente entreguei no final. Esse é um daqueles problemas que ficam na minha cabeça muito tempo depois de eu ter parado de trabalhar nele. Até hoje eu ainda penso nisso e penso em tirar um tempo, agora com LLM’s, pra escrever o código que eu queria ter escrito mas não tive tempo. Quem sabe, talvez no futuro eu volte nisso só pra ver de qualé.

Capítulo 4: Não me sentindo mais tão bem no carro

Então, agora que a gente já está aqui faz um tempo, sem paradas, sempre na correria, isso me pegou. Eu comecei a me sentir desmotivado e no começo eu não entendia o que era, eu achava que eu era burro ou que não tinha disciplina pra focar no trabalho ou estudar mais mas em algum momento eu percebi que disciplina não era meu problema, e eu não era burro (apesar de meus amigos falarem o contrário, lol). Eu tinha acabado de ter disciplina pra treinar e correr uma maratona em 8 meses, do zero, em 4 horas (04 horas e 03 minutos pra ser preciso), então disciplina não era meu problema. Eu também ia muito bem às vezes no trabalho, quando alguma coisa me empolgava de novo, então burrice não era o problema. Depois de alguns meses assim eu percebi que era hora de mudança de ares e de dar uma pausa, ir mais devagar, eu estava desgastado pelo ritmo maluco da viagem. E não me entenda mal, esse ritmo intenso é o que levou a Roadway longe, mas não dava mais pra mim.

E agora olhando pra sua direita dá pra ver um pouco do motivo, que também é a resposta da pergunta número 3, algo que eu quero fazer melhor no próximo capítulo. Fica óbvio que eu era muito ansioso com trabalho, e sempre sentia que estava lento demais ou que não era bom o suficiente. Isso é uma coisa que matou meu desempenho. Eu ficava ansioso pra entregar o trem, tentava fazer o mais rápido possível, deixava passar um detalhe importante porque tava correndo por um prazo que eu mesmo tinha inventado e depois de entregar eu tinha que arrumar e consertar. Esse loop me fazia sentir um fracasso e um péssimo profissional, com certeza teve um papel grande em eu ter perdido o gás. E se você olhar de perto dá pra ver que não é só trabalho, eu faço isso em várias áreas da minha vida. Então essa é a maior coisa que eu to tentando mudar, entender que algumas coisas levam tempo e que ta tudo bem. Eu não preciso fazer tudo em 20 minutos, na maioria das vezes essa pressão nem existe e eu to inventando ela. Eu deveria só focar em fazer bem feito e se rolar rápido rolou, se não então ta certo e eu estou me sentindo bem, e não ansioso igual um cracudo. Tenho lidado com isso bem melhor recentemente.

Porém contudo entretanto todavia, esse não é o único motivo que me fez sair. Isso me faria sair de qualquer emprego ou tarefa na verdade. Tinha outras coisas junto, eu acho que o papel maior aqui foi o dinheiro na real. Eu não tava fazendo um dinheiro super bom, pro brasileiro médio, sim, era um dinheiro bom, mas pra realmente ter o futuro que eu quero, ia levar anos economizando tudo que eu ganhava antes de eu poder gastar tudo pra uma única decisão, e depois mais anos economizando e assim por diante. Eu sei que esse não é o teto pra engenheiros de software, e na verdade eu descobri que era mais perto do chão do que do teto, eu ainda estava num salário de junior apesar de tudo que eu fiz e aprendi. E eu não tinha muita perspectiva de crescimento ali, já que eu tinha que esperar a empresa crescer antes de poder pensar em um aumento ou mudar de área. Isso me fez perceber que pra vida que eu quero eu preciso de um emprego que pague melhor, ou pelo menos de um emprego que não seja tão corrido pra eu poder aproveitar a vida um pouco mais já que estou ganhando menos.

Outro motivo grande que você vê ali na paisagem é que eu sentia que não era justo com todo mundo eu estar ali e não estar 100% motivado. Todo mundo tava metendo marcha, e eu não conseguia mais entregar 100%, então eu sentia que não era justo com eles eu estar ali. Também, menor, mas ainda visível daqui, tem o chamado por uma mudança de ares. Eu sempre trabalhei em time pequeno e queria ver por mim mesmo como era a vida num ônibus grande, que anda devagar e tem um monte de gente. Eu sei que provavelmente eu não me encaixo tão bem num ônibus grande, mas eu queria tentar, e normalmente as coisas são mais fáceis de lidar lá e paga melhor, então parecia um bom próximo passo.

Tudo isso me fez querer descer na próxima parada, e eu tive a sorte de achar uma até que rápido.

Capítulo 5: A verdadeira Roadway são os amigos que a gente faz pelo caminho

Então, agora tamo chegando na minha parada, tenho que pular fora daqui a pouco galera. Foi um prazer dividir essa viagem com vocês, ainda temos alguns quilômetros até lá então deixa eu usar esse tempo pra agradecer a galera da Roadway. Despedidas são sempre difíceis e eu chorei várias vezes pensando e planejando as conversas sobre minha saída da empresa. Foi de verdade uma viagem épica que mudou minha vida de diversas maneiras. Eu acho que esse foi o projeto mais legal em que eu já trabalhei, e provavelmente vai manter esse título por anos e anos. Que oportunidade absurda foi trabalhar com Tim, Sawyer, Alex, Pedro, Ricardo e Sham, numa empresa que tem um produto tão maneiro e clientes que são algumas das maiores empresas nas áreas delas e das quais eu nunca achei que fosse chegar perto. Ainda parece mágico eu ter viajado duas vezes pros EUA pra trabalhar presencialmente, e eu ter ido em tantos lugares legais e restaurantes ótimos (eu nunca vou esquecer o sushi que eu comi com o Ricardo no Shizen em SF, foi top 3 refeições da vida) e vivido coisas que eu nunca achei que fosse viver. Eu sou muito grato por ter tido essa oportunidade, e por o universo de alguma forma ter juntado todos nós nesse momento. Eu considero todo mundo não como colegas de trabalho, mas como amigos.

Claro, tudo isso faz essa despedida ser muito triste, mas eu tenho novas estradas pra seguir e lugares pra ir. Tenho certeza que vou encontrar o time da Roadway de novo num futuro próximo e aguardo ansioso pra isso. Por enquanto, eu vou guardar essas memórias e usar o que eu aprendi lá pra ajudar os outros e viver o futuro que eu quero.

Parece que a gente está chegando, melhor fazer xixi e cocô agora galera, nunca se sabe quando a natureza vai chamar e a próxima parada pode ser longe. Eu vou ficar por aqui um tempo, até logo e amo vocês :)

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